Domingo, 26 de Novembro de 2006

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
 
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
 
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
 
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
 
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
 
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita genteque come
 
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
 
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
 
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
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publicado por Equipa SAPO às 13:51
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5 comentários:
De coelhinhah a 25 de Fevereiro de 2007 às 13:53
olhe, gostave de saber em ke consiste o poema "Pastelaria", o significado de alguns versos (é para um trabalho da escola)...


De Ana a 12 de Agosto de 2011 às 23:22
Não sei se serve para trabalho de escola (espero que tenha corrido bem), mas esta é a minha interpretação, modestíssima, e por certo, errónea, mas aqui vai. O poema foi escrito no tempo do Salazarismo, nos anos 1950, em que não havia liberdade de expressão. Está cheio de metáforas (?), de simbolismos, em que o poeta exprime o seu desencanto e desespero com um quotidiano limitado, cerceado, entediante. Coisas como a literatura, a crítica, o cinema (câmara escura), uma vida profissional bem sucedida, dinheiro, tempo livre, juventude e boa aparência, não assim coisas tão importantes. O que importa mesmo perante o marasmo vigente é ser transgressor e agitar o sistema, denunciando-o, e batendo-lhe o pé. "O que importa é não ter medo, frente ao precipício, e cair verticalmente no vício/Não é verdade rapaz?" é uma clara alusão à homossexualidade desassombrada do poeta, e pela qual foi perseguido policialmente durante o Estado Novo. E apesar disso, a vida continua para a malta intelectual: "amanhã à bola (futebol), madame blanche (bordel) e parola (conversa e má-língua no café)". "Que afinal o que importa é não ter medo/ de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:/Gerente! Este leite está azedo!" - bater o pé ao regime, denunciá-lo, expô-lo publicamente, revelar-lhe os podres.
"Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo/ à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo/ No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra" é, parece-me, uma alusão às viagens que o poeta fazia ao estrangeiro, e em que se libertava durante algum tempo da opressão asfixiante que vivia em Portugal, permitindo-lhe ser ele próprio.


De Mel de Carvalho a 16 de Março de 2007 às 21:40
Começo por te agradecer a tua anexação ao meu blog e de seguida as palavras que deixaste em ambos os meus blogs.
Na verdade o que me move são as coisas simples da vida.
Não sei onde me "encontraste", mas comento normalmente em blogs co-relacionados com artes e/ou cultura.
Alguns temáticos, como este.
Cesariny não carece de apresentação. Fala por si mesmo e eleva alto a palavra "Portugal".
Este é um dos poemas mais conhecidos dele. Tenho comigo, as Líricas Portuguesas - 3ª Série -1958 onde está um poema de Cesariny que eu gosto muito

"Uma corda. Uma garganta"

Uma corda. Uma garganta.
Duas dores. O Infinito.
Um irmão que chora. Uma mãe que canta.
E uma noiva que diz ai que grito.
(...)

E ainda um 2º
"O Discurso ao Príncipe de Epanimondas ..."

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das mais pequenas
das tuas antes que quisquer outras
abre uma cova e enterra-as
ao teu lado...
(...)

***
Pelo que, como podes perceber, estou solidariamente nesta bela homenagem de um Blog a Casariny.

Um beijo d(a)e Mel
e volta sempre que quiseres aos meus espaços ...

Serás sempre bem vindo.

Quem escreve(ainda que amadora como eu) gosta que a leiam, que a critiquem verdadeiramente. A crítica ajuda a crescer. Eu gosto de escrever, não como um "desabafo", mas como uma extensão da minha mente ... Digamos que não é tb um refúgio é mais do que isso, um abrigo de Alma!


De joselessa a 12 de Abril de 2007 às 18:24
Boa tarde Mel.
Desde que te li a primeira vez, que fiquei teu leitor para sempre.
Creio que foi no Cantinho dos Poetas que te li a primeira vez, temos um amigo comum de seu nome Andrade Jorge, perdoa se estou errado mas creio que foi assim que te li a primeira vez.
Quanto a Mario Cesarini, tu dizes quase tudo.
Infelismente em Portugal foi sempre um mal amado, pouco conhecido e muito injustiçado, mas isso nunca o preocupou muito.
Este teu poema de Cesarini é uma pequena amostra do seu potencial, obrigado por mo esviares.
Beijinho e até sempre
José Lessa


De Martim a 20 de Fevereiro de 2013 às 15:34
Bem estou a fazer um trabalho para a escola , e ainda nao percebo bem o tema deste poema, e como posso dividir este poema em partes visto que isto , parece ser tudo um conjunto :s


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